Carolina Pimentel e Ivanir José Bortot
Repórteres da Agência Brasil
Brasília - A um dia da chegada do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ao Brasil, o embaixador do Irã no Brasil, Mohsen Shaterzadeh, minimiza a importância da visita e disse que a política externa brasileira tem dado provas de ser soberana e independente. Segundo ele, a posição do governo da presidenta Dilma Rousseff de se abster ontem (17) na votação, no Conselho de Segurança das Nações Unidas, da resolução que cria uma zona de exclusão aérea na Líbia e autoriza adoção de medidas contra ataques do regime do presidente Muammar Khadafi, é a demonstração da continuidade da política externa do Brasil. Mohsen Shaterzadeh condena qualquer tipo de intervenção dos Estados Unidos na Líbia por provocar "violência e sofrimento ao povo líbio". O Irã promete apoio ao povo daquele país e condena a atuação do governo de Khadafi por falta de legitimidade e por representar o poder econômico do Ocidente, entre eles dos Estados Unidos. Confira abaixo a íntegra da entrevista concedida à Agência Brasil.
Agência Brasil (ABr) - Qual avaliação o senhor faz da visita do presidente Obama ao Brasil?
Mohsen Shaterzadeh - As relações bilaterais sempre
estão baseadas em cooperação. Não existe uma cooperação baseada na
inimizade, como a união de dois países contra um país terceiro. Pelo
conhecimento que temos dos nossos amigos brasileiros e do governo
brasileiro, achamos que qualquer cooperação do Brasil com qualquer país
é, certamente, no sentido de desenvolver suas relações bilaterais com
esses países e nunca será para aproximação contra um país terceiro.
Temos uma relação muito vasta, muito ampla com o Brasil. Nossas relações
com o Brasil nunca serão contra um país.
ABr - O senhor teme que uma aproximação do Brasil com os Estados Unidos signifique um afastamento em relação ao Irã?
Shaterzadeh - O ministro Patriota [Antonio Patriota,
ministro das Relações Exteriores] afirmou em várias situações em dar
seguimento à política externa do presidente Lula. Estamos confiantes que
a política externa brasileira será a continuação da política anterior.
Acreditamos que a política externa brasileira é realista, baseada em
inteligência e de acordo com o interesse nacional brasileiro e não será
influenciada pelo poder externo. Acreditamos que o Brasil foi, de certa
forma, muito corajoso por ter votado pela abstenção [votação nas Nações
Unidas para criar uma zona de exclusão aérea na Líbia.
ABr - A posição brasileira foi acertada?
Shaterzadeh - Isso demonstra que é uma política
soberana e independente. Nós também temos interesses comuns com o
governo brasileiro. Acreditamos que as relações com o Irã vão melhorar
ainda mais. O Irã, como um grande país do Oriente Médio, chama atenção
do Brasil. Do outro lado, o Brasil é um país importante para nós na
América do Sul, nesse sentido existe uma convergência de interesses dos
governos.
ABr - Qual a avaliação sobre a possibilidade de uma intervenção armada na Líbia?
Shaterzadeh - Acreditamos que tem de ser respeitadas a
opinião, as aspirações e o desejo do povo. O grande problema na região é
a existência dos governos ditatoriais apoiados pelos Estados Unidos.
Acho que o melhor trabalho que os Estados Unidos poderiam fazer é não
interferir em assuntos internos. Os Estados Unidos e os países
ocidentais nunca defenderam os direitos dos povos dessa região, mas
sempre seus interesses. Para qualquer pessoa que tem interesse em ajudar
o povo da Líbia, a melhor solução é impedir a intervenção dos Estados
Unidos e dos países do Ocidente. A melhor forma é ajudar o povo a
resolver os problemas com os governos locais.
ABr - Ajudar o povo com ou sem Khadafi no governo?
Shaterzadeh - Temos de deixar o povo decidir sobre o
seu destino. Acho que nesse sentido o povo tem maturidade para poder
decidir. O povo compreende que o comportamento dos Estados Unidos e dos
países do Ocidente é uma atitude para enganar, é falso. Eles falam de
apoio ao povo, mas é mentira, pois todo esforço é para conservar seus
interesses.
ABr - Como o senhor vê o papel do presidente Obama em uma solução para os conflitos na Líbia?
Shaterzadeh - O que achamos é que o presidente Obama
tem que respeitar os direitos do povo e não interferir em outros países.
Uma invasão ou um ataque militar contra a Líbia, certamente aumenta a
violência e o sofrimento desta população. O povo de uma forma soberana é
independente e deve decidir seu destino. Os Estados Unidos da América
nunca respeitaram os direitos dos povos.
ABr - Caso haja uma intervenção na Líbia por parte
dos países do Ocidente, o Irã ficará ao lado do governo da Líbia e que
tipo de ajuda poder dar?
Shaterzadeh - Nós apoiaremos o povo da Líbia.
ABr - Com que medidas apoiará o povo?
Shaterzadeh - Temos que ter paciência e esperar mais um pouco para ver os acontecimentos.
ABr - Isso significa que o Irã não apoiará Khadafi?
Shaterzadeh - Nós não apoiamos o governo de Khadafi.
ABr - Então, o Irã não apóia Khadafi e é contra a intervenção?
Shaterzadeh - É da nossa visão que a soberania
pertence ao povo. Todos os nossos esforços e as iniciativas neste
sentido são para ajudar o povo a conquistar estes direitos. Um governo,
um Estado que mata seu povo, não tem legitimidade. Este governo de
Khadafi de certa forma é apoiado pelo Ocidente e pelos Estados Unidos. O
motivo deste apoio do Ocidente é a existência do petróleo na Líbia. O
Ocidente e os Estados Unidos têm cerca de US$ 200 bilhões em
investimentos na Líbia. Esta estratégia de atacar o governo da Líbia
para defender o povo é uma grande mentira. Eles estão defendendo os seus
interesses neste país. Vocês podem estar seguros de que se o Ocidente
retirar o apoio ao governo de Khadafi, o povo vencerá.
Shaterzadeh - Nós achamos que o povo brasileiro é
muito maior do que uma visita do presidente dos Estados Unidos.
Sobretudo, um presidente estrangeiro que visita o Brasil em um sábado e
domingo, que não é um dia de trabalho. Se você for perguntar ao povo
brasileiro vai ver que a visita não é tão importante para eles.
منبع:Agência Brasil
- توسط محسن شاطرزاده
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